Kintsugi, memórias
e o amor que continua depois do fim
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“Essa é a última violeta que ganhei da Laura.” Foi pensamento que me tirou do automático regando as plantas.
Me fez sorrir a percepção de que um pouco dela continuava comigo fisicamente naquelas flores, assim como na figa que ela me deu e carrego de amuleto ou na plaquinha de “que Allah proteja Bia” que ela me trouxe mais de vinte anos atrás do Marrocos e continua na minha parede.
A verdade é que, olhando em volta na minha casa, ela ainda está presente em incontáveis detalhes, lembranças e histórias re-contadas agora com saudade.
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Poucos dias depois, enquanto colava a galinha de porcelana que meu padrinho trouxe de viagem antes mesmo de eu nascer (e que eu chorei mais do que pareceria lógico quando quebrou), postei no Instagram sobre a tradição do Kintsugi¹ e uma foto da minha avó materna, Tomie, que não tive o prazer de conhecer nem de herdar o sobrenome Katayama.
Para a minha genuína surpresa, duas amigas falaram que me viram em traços dela. Logo eu, que sempre me senti meio roubada de qualquer mínimo fenótipo oriental.
E ali, olhando para aquela cerâmica agora com veios e um tantinho mais de história, fiquei feliz em perceber quantas infinitas frações também me compõe.
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Eu ainda falo da História da letra A, que a minha professora da primeira série inventou pra nos ensinar a escrever em letra cursiva; e foi graças ao professor da quinta que confiei na minha escrita e continuei rabiscando e criando por aí até hoje.
Amar Cássia Eller é herança da minha tia materna mais nova e Black Sabbath, do meu tio paterno. Desenhar é da minha mãe.
O “oxe!” ganhei ao longo de 25 anos da minha madrasta soteropolitana.
Eu também sorrio todas as vezes que passo por uma imagem de São Jorge, porque me lembra uma amiga amada, e fecho os olhos para agradecer a minha Avó paterna toda vez que toca “Ain’t no sunshine” em algum lugar aleatório, porque sei que é ela ali comigo.
Minha árvore de Natal ganha novos enfeites a cada viagem e, assim como eu, ela reflete o amor por cada lugar que passei.
A palavra mais aleatória que sei em italiano é brugola, que significa chave Allen e é o nome da gatinha da família que me hospedou em Stimigliano.
Foi nessa casa também que, conversando com o Danielle sobre tradições e costumes, finalmente me caiu a ficha de que a Tombola² que eu, minha mãe e minhas tias jogamos no Natal, vem de algum lugar distante da nossa família italiana.
Histórias de pessoas com quem dividi apenas algumas horas em um vôo ou em um hostel me marcaram tão profundamente, que mudaram sutilmente algo em mim.
Amigas que fiz depois de adulta curaram dores de infância e amizades que se desfizeram nos últimos dois anos vão continuar sendo honradas pelo que um dia foram.
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Tem quem me ache nostálgica e sensível demais, mas eu não trocaria por nada no mundo esse meu jeito.
Acho um privilégio imenso sentir profundamente e guardar o melhor do que cada pessoa que já passou por mim deixou…
E, com isso, poder também dar continuidade à vida dos que já não estão mais aqui.
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(obrigada por, direta ou indiretamente, ser parte disso)
Bê
¹ Kintsugi é a técnica japonesa de consertar cerâmicas quebradas com uma mistura de laca com pó de ouro, prata ou platina. Ela guarda também a filosofia de que o valor dos objetos está na história que carregam e suas imperfeições, rachaduras e marcas são parte do que as torna únicas.
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² Tombola é um jogo muito parecido com bingo e o nosso era do meu bisavô Antonio. Eu amo objetos que tem história

